Resenha Histórica


“E que em caso que se algum fogo levantasse, o que Deus não queira, que todos os carpinteiros e calafates venham aquele lugar, cada um com seu machado, para haverem de atalhar o dito fogo. E que outrossim todas as mulheres que ao dito fogo acudirem, tragam cada uma seu cântaro ou pote para acarretar água para apagar o dito fogo”.

Por ocasião da inauguração do novo quartel, iniciara-se há poucos meses o terceiro milénio, deixamos nas páginas de “Do Sonho à Realidade” uma ténue pista  que começava a responder a uma interrogação que então nos assolava: quando teria começado a verdadeira história dos nossos bombeiros, sendo irrefutável que a data de 17 de Maio de 1932 tão-somente significava o culminar de um processo de consolidação institucional, naturalmente devedor de um outro, quiçá longo e penoso, para até lá se chegar? A memoria oral vilaverdense, ainda que desperta em alguns concidadãos nossos ainda vivos, todos nascidos no primeiro quarteirão do século passado e um deles no limiar da república, foi-nos deixando pistas valiosas, sobretudo na referência que fomos colhendo a caminhos que nos conduziram ao outro lado da história que desconhecíamos por completo, mas que constituí, podemos agora percebê-lo, quiçá, o naco mais exaltante da história dos nossos bombeiros, consubstanciado no momento em que foram lançadas, por obra valorosa de um punhado de ilustres e empenhados cidadãos de Vila Verde, as sementes que, germinadas, haveriam de produzir a instituição que hoje somos. Todavia, a ponta da meada ainda andava emaranhada e, por aqui, não era humanamente possível chegar a esse 15 de Agosto de 1914 de que fala a acta da reunião de direcção de 6 de Julho de 1958. Foi na memória escrita que achamos a resposta cabal que procurávamos, a tal ponta da meada que andava perdida e que, encontrada, nos possibilitou ligar a génese dos nossos bombeiros ao dia de hoje.

Numa visita que fizemos à Biblioteca Nacional pudemos olhar uma muitíssimo bem conservada colecção da “Folha de Villa Verde”, semanário que se publicou na nossa terra entre 1885 e 1945, com uma regularidade que, não sendo total, foi muito significativa, onde são guardadas memórias valiosíssimas de uma parte importante desta ainda novel sede de concelho, onde se juntaram outros vetustos territórios administrativos de antanho, que desde há muitos séculos constituíram aquele que é hoje o nosso território concelhio.

No número 1257 da “Folha de Vila Verde”, dado à estampa em 1 de Outubro de 1911, noticia-se a ocorrência de dois incêndios: um, numa habitação de um padeiro da vila onde, “dada a voz d’alarme começou a afluir bastante gente…esforçando-se todos em promover a extinção do fogo, que irrompia assustadoramente das trazeiras do prédio”, relatando-se, ainda que, “subindo ao telhado alguns populares, capitaneados pelo Sr. Gaspar Guimarães, que se houve com o maior arrojo e dedicação, conseguiram elles localisar o incêndio, que era extinto decorrida cerca de uma hora, tendo causado prejuízos superiores a 100$000 reis; outro, um dia depois, “ na cosinha da casa de um negociante d’esta povoação”, que “foi prontamente extinto, sendo insignificantes os prejuízos”.

Nesta notícia, e à laia de comentário ao que se passou, diz o redactor: “E agora perguntámos nós: Quando se tomará a iniciativa, -já não diremos da organização de um serviço regular de incêndios, -mas, pelo menos, da compra d’uma bomba para extinção d’estes? Quando se resolverão os de Villa Verde a sahir da criminosa apathia em que teem vivido para tratarem a valer dos seus legítimos interesses? Pois toda a actividade da gente d’esta terra não dará de si outro signal, além da manutenção d’um club modesto, e da organização d’algum barato salsifré por qualquer agremiação de sol e dó? Parece-nos, com o subsídio que a câmara e as companhias de seguros deverão dar, facílimo será conseguir a compra de, pelo menos, uma bomba”3. No número 1330, da “Folha de Villa Verde” de 23 de Fevereiro de 1913, dá-se conta de mais um incêndio que se manifestou ”na sexta-feira de manhã, numa meda de palha pertencente ao sr. …, do vizinho lugar do Monte”, e de que “como acudissem algumas pessoas, foi o fogo dominado, sendo pequenos os prejuízos”. Percebe-se, pelo foco que a imprensa local então colocava na vida da sede do concelho, que, no que concerne a bombeiros, ou algo que com isso pudesse ser conotado, nada se passava em Vila Verde, ou, antes, bradava-se pela sua inexistência.

A primeira referência a tal aparece em 18 de Janeiro de 1914, quando, no seu número 1376, a “Folha de Villa Verde” informa que “a câmara d’este concelho contribuiu com 300$ para a compra de uma bomba contra incêndios”, acrescentando que “com esta quantia, e com a que deve existir do producto d’um espectáculo realisado há tempo no tribunal judicial, é de esperar que já se possa fazer a acquisição d’essa bomba”. É a partir desta notícia que chegaremos ao fim do nosso intento de encontrar o que faltava à história dos nossos bombeiros, como adiante veremos. Entretanto, a imprensa local que temos estado a citar continua atenta à problemática da organização de um corpo de bombeiros em Vila Verde e, nesta conformidade, dá conta no seu número 1391, de 3 de Maio de 1914, numa notícia que intitula “Bomba de incêndios”, que “incluindo o producto da subscripção aberta no concelho, a commissão encarregada da compra d’uma bomba contra incêndios dispõe já, para esse fim, de cerca de 700$”. Continuando a espreitar a “Folha de Villa Verde” percebemos que, cinco meses depois da última notícia a que atrás aludimos, as coisas parecem não andar com a pressa que se pedia.

No número 1414, publicado em 11 de Outubro de 1914, dá-se conta de mais um incêndio numa casa “à entrada d’esta povoação”, que “começou n’uma loja, onde se encontrava armazenada grande quantidade de palha e lenha, e irrompeu com grande violência”. Informa-se que “dado o sinal d’alarme, acorreram ao local muitas pessoas, que arrojadamente procuraram debellar o incêndio” e de que “ foram também requisitados socorros para Braga, comparecendo dentro em meia hora um piquete de bombeiros, com uma bomba”, constatando o jornalista, todavia, que “ a esse tempo o fogo estava já dominado, sendo, por isso, desnecessários os seus serviços”. A notícia é rematada com dois comentários lancinantes: o de que “mais uma vez se fez sentir a falta d’uma bomba, lamentando-se que dificuldades várias se tenham oposto à rápida acquisição d’aquella para que se abriu uma subscripção no concelho; o que deixa a esperança na concretização do intento, com um suspirado “oxalá que a iniciativa da bomba se não mallogre também, como costumam mallograr-se em Villa Verde os emprehendimentos úteis”.

Posto este último grito de revolta e quase acusação pública a uma inércia latente e com alegados antecedentes na terra, a “Folha de Villa Verde” noticia em 7 de Fevereiro de 1915, no seu número 1431, que “até ao fim do corrente mez deve ser feita a entrega da bomba contra incêndios, que uma commissão de villaverdenses se havia incumbido de adquirir” e de que “seguidamente, proceder-se-há á organização d’um corpo de bombeiros voluntários”, o que, note-se, não veio a acontecer, uma vez que na “Folha de Villa Verde número 1439, de 4 de Abril de 1915, se dá nota de que “deve chegar no dia 11 a Villa Verde a bomba que se adquiriu contra incêndios” e de que “ nessa ocasião, realizar-se-ão diversos exercícios, em que tomarão parte os bombeiros que se vão recrutar”.

Finalmente, passadas as vicissitudes de que atrás demos nota pela voz da imprensa local de então, a “Folha de Villa Verde” insere no seu número 1441, de 18 de Abril de 1915, a notícia que, naturalmente, terá enchido de júbilo toda a terra vilaverdense: “Apresentou-se pela primeira vez em público, no domingo último, com os seus uniformes, a briosa corporação dos bombeiros voluntários de Vila Verde, que foi quem fez a guarda d´honra na procissão do Menino Jesus. Juncto do edifício do tribunal, realisaram-se também n’esse dia alguns exercícios com a bomba, sob a direcção do sr. José Maria da Silva Couto Netto, hábil chefe das officinas da inspecção-geral de serviço de incêndios do Porto.” Mas esta história não acaba aqui, nem, por isso, a outra história poderá, então, iniciar-se. A notícia da “Folha de Villa Verde” atrás vertida, que fala de um subsídio de 300$00 atribuído pela câmara para a compra de um bomba, levou-me ao arquivo municipal e às actas das sessões camarárias aí religiosamente guardadas, e, num ápice, à acta da sessão da Câmara Municipal de Vila Verde de 20 de Dezembro de 1913, então dirigida por uma Comissão Administrativa, onde me foi possível chegar ao fim da linha. Esse documento, histórico para a nossa casa, dá-nos a conhecer que nessa sessão foi apreciado um requerimento subscrito por “Estêvão Alves de Faria, Arnaldo Augusto de Faria, José Joaquim Peixoto, Gaspar Emílio Lopes Guimarães, padre Manuel José Rodrigues da Cruz e António Joaquim do Lago Júnior, d’esta freguesia e concelho de Villa Verde, dizendo que, constituídos em comissão para angariar donativos destinados à aquisição de uma bomba e respectivo material d’incêndios, havendo dirigido a esta municipalidade o pedido da concessão dum subsídio para, com o produto da subscrição que os signatários promovem, -e tendo conhecimento de que, obtemperando-se aos seus desejos, no orçamento do corrente anno civil foi votada e devidamente autorizada a verba de despeza de trezentos escudos – destinada à aquisição do material da referida natureza, -vêem solicitar que, para realização da generosa intenção d’esta municipalidade e do humanitário propósito dos signatários, a sobredita importância seja mandada transferir do cofre do município para o da comissão, mediante escriptura de recibo e compromisso de se fazer a aquisição referida e de, caso esta se não realise, ser restituída à câmara a importância assinalada, sendo ainda reconhecida à mesma câmara, para a hypothese de liquidação, o direito de rehaver do material uma parte, proporcional às quantias dadas”, que mereceu o devido assentimento dos autarcas para entrar em discussão e sobre o qual o presidente da Comissão Administrativa houve por bem tecer os considerandos e formular a proposta que seguem: “Reconhecida, por falta de meios, a impossibilidade do município tomar a seu cargo o tão importante como urgente serviço de extinção d’incêndios – há tempos que esta Comissão Municipal vem advogando a ideia de se recorrer à iniciativa particular, promovendo-se uma subscripção em todo o concelho, e para a qual contribuirá a câmara, como lhe cumpre, com o donativo possível. A realisar esta intenção foi votada em orçamento a verba de trezentos escudos para ser adquirida uma bomba que pela câmara era offerecida ao instituto que viesse a encarregar-se de taes serviços. Mas, visto que os trezentos escudos votados não chegam para tal compra e visto que já está constituída uma comissão composta de pessoas de todo o crédito, que propõe supprir esta deficiência com o produto da subscripção já iniciada e attendendo ainda às garantias expressas na parte final da representação ou requerimento que se discute – propõe que a essa comissão se entregue a referida importância de trezentos escudos, mediante a escriptura e clausulas já por ela apresentadas, acrescentando-se apenas que o prazo de acquisição da bomba não irá além de seis meses e que, caso assim se não cumpra, seja aquella importância restituída à câmara, com o juro que deveria vencer se estivesse depositada no Banco do Minho. –“. A acta em apreço termina dando conta de que a matéria em análise “assim se resolveu, ficando a presidência autorisada e encarregada de assinar, em nome da municipalidade, a competente escriptura.”

Julgamos, sem sombra para qualquer dúvida, que ficou neste dia escrita oficialmente a primeira página da história desta casa, por vontade expressa de um conjunto de vilaverdenses ilustres – Estêvão Alves de Faria, Arnaldo Augusto de Faria, José Joaquim Peixoto, Gaspar Emílio Lopes Guimarães, padre Manuel José Rodrigues da Cruz e António Joaquim do Lago Júnior, pela ordem que constam na acta – e mandato oficial da municipalidade, que ao tempo detinha a competência legal para formar os corpos de bombeiros e que, por manifesta impossibilidade logística, a de Vila Verde não conseguia cumprir, mas para a qual orçamentara já uma verba de 300$00, que incluíra no seu orçamento de 1913, e que viu nestes vilaverdenses a possibilidade de concretizar o desiderato que perseguia, pelo que a depositou nas suas mãos, para que, com ela e com o produto doutras colectas – uma festa levada a cabo no tribunal e um peditório feito no concelho constituem as iniciativas que a “Folha de Villa Verde” relata e de que atrás damos conta – organizassem um serviço “ de extinção d’incêndios” na sede do concelho. Mais tarde, já pelo ano de 1923, olhados os registos escritos chegados até nós, podemos constatar que ainda aparece o cidadão vilaverdense Estêvão Alves de Faria como “presidente da comissão instaladora da Associação dos Bombeiros de Vila Verde”,e que nos primeiros corpos gerentes eleitos após a aprovação dos primeiros estatutos constam Gaspar Emílio Lopes Guimarães, António Joaquim do Lago Júnior e Padre Manuel José Rodrigues da Cruz, quatro dos seis nossos antepassados que há noventa e cinco anos começaram a saga que haveria de, com sangue suor e lágrimas, erguer a grande instituição vilaverdense que hoje é a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vila Verde. Que tenham uma longa vida ao serviço dos vilaverdenses, com honra e glória para sempre.

Alberto Nídio